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18/09/2020 | 07:51 | Polícia

Em meio à retomada das atividades, fábricas gaúchas sofrem com escassez de insumos

Pandemia do coronavírus provocou desarranjo nas cadeias produtivas, o que elevou os preços de matérias-primas

Reprodução/Internet


Após a pandemia derrubar a atividade de fábricas, parte da indústria gaúcha depara com desafio adicional: a falta de insumos. Em meio à retomada da economia global, matérias-primas como aço, alumínio e componentes plásticos ficaram escassas no mercado, relatam empresários. A dificuldade de acesso aos produtos vem acompanhada de aumento nos preços e preocupa companhias que tentam espantar as perdas recentes.


A escassez, em parte, está relacionada aos diferentes estágios da pandemia. Inicialmente, a covid-19 provocou redução na atividade industrial pelo mundo. Agora, quando companhias gaúchas buscam a retomada dos negócios, têm de competir com o apetite internacional por insumos. O dólar em nível elevado, na faixa de R$ 5,20, incentiva exportações e tende a diminuir a quantidade de matérias-primas no mercado interno.


Um dos setores impactados é o metalmecânico. Empresas da Serra, referência no segmento, mostram preocupação com a disparada nos preços do aço e os prazos alongados para entregas.


— Há várias demandas no setor. Mas o maior problema é a falta de aço, alguns tubos especiais estão faltando. No acumulado do ano, o preço teve aumento de 45%, e outro reajuste, de 13%, foi anunciado para outubro — afirma Ruben Antonio Bisi, vice-presidente de relações institucionais do Simecs, que representa indústrias metalmecânicas na região de Caxias do Sul.


Além do custo mais alto, empresas de menor porte são afetadas porque não compram diretamente de siderúrgicas e dependem de estoques de revendedores, diz Nestor Zignani, diretor da Portabras. A indústria, com sede em Caxias, desenvolve portas roll-up (com abertura para cima), destinadas aos segmentos rodoviário e residencial.


— O mercado para nosso segmento não se retraiu tanto. Mas estamos com dificuldades para comprar aço, insumos de plásticos e alumínio — relata Zignani.


— A perspectiva de distribuição é bem crítica para outubro, novembro. Esse movimento é como a corrida das pessoas ao supermercado, no início da pandemia, para comprar papel higiênico. As empresas, ao verem a escassez, tentam trazer estoque — compara.


Custos


A construção civil, que retomou obras no Estado, também sente os reflexos da maior procura por insumos. Neste momento, o setor ensaia recuperação, mas o aumento nos custos preocupa, sinaliza Aquiles Dal Molin Júnior, presidente do Sindicato das Indústrias da Construção Civil no Rio Grande do Sul (Sinduscon-RS).


— Além do aço, está havendo uma elevação bem considerável no preço do cimento. O cobre também subiu, com o fechamento de minas durante a pandemia no Chile. A construção está em período de aquecimento — afirma o dirigente.


Setores dependentes de equipamentos importados também sentem os reflexos da pandemia nas cadeias produtivas. É o caso da indústria eletroeletrônica, que adquire, em larga escala, componentes da Ásia – especialmente da China.


Em setembro, 72% dos empresários do setor no Estado tiveram dificuldades para compra de insumos, seja no país ou no Exterior. Em agosto, esse percentual era menor, de 51%. Os dados são estimados por pesquisa da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee).


— O aumento no percentual é um alerta, um sinal vermelho. Alguns insumos estão faltando tanto no mercado interno quanto no externo — avalia Regis Haubert, diretor regional da Abinee.


O empresário destaca que parte das fábricas “diminuiu muito” a produção devido à pandemia, não só no Rio Grande do Sul. Assim, a recuperação dos níveis de operação não é momentânea, conclui:


– Quando as empresas vão parando, há um efeito dominó. Acredito que o abastecimento de insumos pode ser normalizado em prazo de 60 a 90 dias.


Dificuldade relatada em todo o país


A dificuldade para encontrar insumos é uma realidade nacional. Na primeira quinzena de agosto, 47,6% das empresas brasileiras depararam com obstáculos na hora de acessar fornecedores, indica o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A estimativa integra a edição mais recente da pesquisa Pulso Empresa, lançada nesta semana – o estudo dimensiona os efeitos da covid-19 nas companhias.


A indústria de plásticos faz parte do grupo afetado. Segundo representantes do setor, a demanda por matérias-primas passou a crescer nos últimos meses a partir de mudanças trazidas pela pandemia.


— Houve consumo maior com a necessidade de equipamentos de proteção, de máscaras. Os insumos também são usados nas embalagens de alimentos. A indústria petroquímica não está conseguindo suprir toda a demanda — relata Gerson Haas, presidente do Sindicato das Indústrias de Material Plástico no Estado (Sinplast-RS). 


— A pandemia desregulou o mercado internacional — define.


Na indústria calçadista, outro setor de impacto na economia gaúcha, a falta de insumos não chega a preocupar neste momento. Houve casos isolados de escassez de insumos, sinaliza Haroldo Ferreira, presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados). A sede da entidade fica em Novo Hamburgo, no Vale do Sinos.


Segundo Ferreira, um dos pontos de atenção no momento é a alta nos preços de matérias-primas, estimuladas pelo avanço do dólar. A pressão cambial ocorre no momento em que o setor calçadista busca retomada após ser atingido em cheio pela pandemia.


— Hoje, não há uma crise de falta de insumos no setor. Alguma empresa pode ter tido problema isolado. O que está acontecendo é um aumento no preço de insumos em razão do câmbio — avalia.


A crise e seus efeitos


*O primeiro caso de coronavírus foi registrado em março no Rio Grande do Sul. De lá para cá, a covid-19 provocou efeitos indigestos para indústrias


*Dentro do Estado, a pandemia causou o fechamento de lojas


*A parada no comércio diminuiu a procura por itens industrializados


*No Exterior, também houve prejuízos. De janeiro a agosto, as exportações da indústria gaúcha totalizaram US$ 6,7 bilhões. O resultado sinaliza queda de 20,6% em relação a igual período do ano passado, conforme a Fiergs


*De março a julho, as fábricas perderam 39,3 mil empregos com carteira assinada no Estado. O saldo decorre da diferença entre 117,3 mil demissões e 78 mil contratações. *Representa quase 30% de todos os postos fechados no período (131,4 mil). Os dados são do Caged, o cadastro de empregos formais do Ministério da Economia


*Agora, o setor busca reagir. Mas a escassez de insumos e a alta nos preços de matérias-primas desafiam a recuperação de parte das fábricas


*Em julho, a produção industrial gaúcha subiu 7% frente a junho. Foi a terceira alta consecutiva, porém ainda não recupera todas as perdas dos últimos meses


*Os sinais de alívio foram reforçados com a divulgação de indicador de atividade da Fiergs. Em julho, o Índice de Desempenho Industrial (IDI-RS) cresceu 3,2% na comparação com junho. Foi a terceira elevação seguida

Fonte: Gaúcha ZH

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