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17/09/2020 | 18:31 | Polícia

Trabalho como coaching e ligação com o tradicionalismo: quem era o casal assassinado pelo ex-namorado da vítima

Liana dos Santos Gomes, 35 anos, e Andrio Andrade Mazzarro, 29, foram mortos a tiros

Mazzarro e Liana estavam juntos há quatro meses - Arquivo pessoal / Arquivo pessoal


A assistente administrativa Liana dos Santos Gomes, 35 anos, estava experimentando uma felicidade que ainda não conhecia. Após deixar um relacionamento conturbado com o pai da filha de dois anos, encontrou sossego ao lado do técnico agrícola Andrio Andrade Mazzarro, 29. O casal tentava formar uma família, junto a filha dela, em Júlio de Castilhos, na região central do Estado, quando tiveram a vida abreviada por Everton Luiz Rodrigues, 38, ex-companheiro de Liana. Segundo a polícia, após assassinar o técnico agrícola a tiros na terça-feira (15), Rodrigues sequestrou e matou a ex-companheira na quarta-feira (16) no interior do município de Condor, no Noroeste. Depois, cometeu suicídio. A arma, um revólver calibre 38, não estava no nome do suspeito.


Liana e Rodrigues viveram juntos por pouco mais de dois anos. Segundo pessoas próximas, ele sempre demonstrou ciúme: olhava o celular da companheira e cuidava com quem ela conversava. Quase um ano separada, Liana conheceu Mazzarro pelas redes sociais. Os dois conversaram por quase dois meses até marcarem o primeiro encontro. Após as dificuldades enfrentadas com o pai da filha e por temer a reação do ex, Liana resistia à ideia de um novo relacionamento. Há quatro meses, o gosto de ambos pelo tradicionalismo os aproximou e o namoro iniciou. As frequentes ameaças de Rodrigues aceleraram a ida de Mazzarro para a casa da namorada.


— Ele ia na casa dela ameaçá-la. Ficava batendo na porta, cruzava de carro. Fazia escândalo, tentava entrar. O Andrio (Mazzarro) começou a ficar ali para protegê-la. Eles estavam se dando muito bem, ela estava reconstruindo a vida depois de sofrer muito no outro relacionamento — afirma o irmão de Liana, Mateus dos Santos Gomes, 32 anos.


O comportamento de Rodrigues motivou Liana a procurar a delegacia em 26 de julho para registrar ocorrência por perturbação. A técnica estava com medida protetiva ativa e tinha audiência marcada para os próximos dias para renovação do procedimento. Aos policiais, não relatou agressão, mas contou que vinha sendo perseguida há uma semana, que Rodrigues tentava entrar na sua casa e que pegou seu computador em busca de mensagens.


— Ele sabia que ela estava com o Andrio (Mazzarro) e queria ver as conversas. Ele estava proibido de se aproximar dela, de fazer contato com ela ou familiares — explica a delegada de Júlio de Castilhos, Alessandra Padula.


Apesar da importunação do ex, Liana havia encontrado a paz que até então desconhecia em um relacionamento. Na descrição de familiares e amigos, Mazzarro era carinhoso com a namorada e também entrosado com a filha da companheira.


— Ela dizia que estava feliz, tinha uma energia boa. E parecia ser uma felicidade que ela procurou a vida inteira e estava tendo só agora. Estavam vivendo um momento só deles. Ela estava sendo feliz como nunca tinha sido. Liana queria fazer uma janta para nos apresentar o Andrio, que fomos deixando para depois — lembra a comadre e colega de trabalho, Landara Simon, 32 anos.


Servidora do Instituto Federal Farroupilha (IFFar) desde 2008, Liana estava realizando outro sonho: nas horas de folga tinha iniciado as atividades como coaching. Seu objetivo era conciliar com o trabalho para, no futuro, fazer dessa sua atividade principal.


— A Liana te botava para cima só de falar contigo, adorava conversar e orientar. Era disposta a tudo, não tinha ruim, não media esforços para ver as pessoas bem, para cuidar — afirma Landara.


Filha do meio de três irmãos, Liana nasceu e cresceu em Júlio de Castilhos e era apegada aos avós. Na propriedade deles, gostava de andar a cavalo. Segundo o irmão, Liana era independente, corajosa e gostava de tomar a frente na organização de festas e confraternizações. Vivia para o bem estar da filha.


— Era muito intensa. Quando descobriu que seria mãe de uma menina, ficou realizada. A filha era o sonho da vida dela — afirma a Landara.


Vitórias pessoais e profissionais


Mazzarro foi assassinado no momento em que conseguiu conciliar vitórias na vida pessoal e profissional. Há dois meses, após período desempregado, tinha conquistado uma vaga de representante comercial de insumos agrícolas. Depois de uma temporada solteiro, estava, segundo pessoas próximas, feliz no relacionamento com Liana.


— Ele se arranjou na vida, conseguiu o emprego, uma namorada boa e aconteceu isso. No nosso grupo de amigos, ninguém quer acreditar. Quando me falaram, achei que não era verdade — afirma o amigo Tulio Peres, 32 anos.


Com formação em técnico agrícola sonhava em empreender no ramo de assistência no campo. Ligado ao tradicionalismo gaúcho, gostava de andar pilchado e era apaixonado por música nativista. Junto aos amigos, organizada festivas e se destacava na composição de melodias.


— Era um cara muito criativo, para frente, organizávamos os festivais no fundo de uma fazenda, assávamos carne. Era alguém que colocava os outros para cima. Não falava mal de ninguém. E dava atenção a qualquer pessoa que fosse falar com ele — recorda o amigo.


Ao irmão Andrei Andrade Mazzarro, 24 anos, confidenciou mais de uma vez os episódios que a namorada enfrentava com o ex e as ameaças que ele também sofria. Havia se mudado para a casa de Liana principalmente para tentar evitar as investidas de Rodrigues.


Natural de Júlio de Castilhos, era comunicativo e expansivo, colecionava amizades em Santa Maria e Alegrete e aguardava com ansiedade o fim da pandemia para voltar a frequentar rodeios e festas tradicionalistas.


— Meu irmão era um cara querido por todo mundo, tinha muitos amigos. Estava sempre com violão. Não imaginava que isso poderia acontecer, pensava que algo ele (Rodrigues) poderia fazer, mas não achávamos que ia chegar a esse ponto — relata Andrei.


Polícia vai tentar identificar origem da arma


No comando da investigação, o delegado Adriano Rossi vai tentar identificar a origem da arma do crime. O revólver estava escondido embaixo de uma pilha de lenha próximo ao Vectra onde os corpos de Rodrigues e Liana foram localizados, no interior de Condor.


— Ele teve a intenção de esconder a arma no local, mas não conseguiu porque já estava baleado e retornou para o carro e ali acabou morrendo. É algo estranho, nestes casos normalmente a arma fica ao lado do corpo — explica o delegado.


A polícia afirma que os familiares do suspeito dizem que não tinham conhecimento do crime. No painel do carro dele, estavam a medida protetiva de Liane e uma carta digitada e impressa endereçada à família. No texto se despede e orienta sobre o que fazer com seus bens. Outras duas cartas, escritas à mão, foram deixadas para os pais dele.


— Apreendemos o notebook onde faremos uma perícia para ver se descobrimos algo mais sobre o planejamento do crime e a origem da arma. Aguardamos as necropsias para tirar mais algumas dúvidas e ter certeza de outros pontos — diz o delegado.

Fonte: Gaúcha ZH

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