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17/09/2020 | 05:50 | Saúde

Letalidade do coronavírus em cidades que lançaram "kit covid" é semelhante à média estadual

Cidades pioneiras na adoção da cesta de medicações sem comprovação de eficácia relatam baixo uso da cloroquina

Reprodução/Internet


No começo de julho, municípios gaúchos começaram a disponibilizar um conjunto de medicamentos chamado de "kit covid" para fazer frente ao avanço da pandemia de coronavírus no Estado.


A expectativa era garantir o fornecimento de medicações, mesmo sem comprovação científica de eficácia contra a covid-19, como a cloroquina, para evitar mortes e internações. Passados pouco mais de dois meses desde o início da medida, os dados não permitem concluir que a estratégia foi efetiva. A taxa de letalidade da doença entre os pacientes que apresentaram sintomas após o lançamento dos kits em quatro cidades pioneiras é praticamente a mesma de todo o Estado.


Conforme reportagem publicada por GZH em 9 de julho, Cachoeirinha, Campo Bom, Gravataí e Parobé estiveram entre os primeiros municípios gaúchos a apostar nessa medida — que ganhou força a partir do dia 7 daquele mês. Analisando-se somente os casos dos pacientes que apresentaram sintomas a partir daquela data até 45 dias depois (não foram utilizados dados mais recentes porque o período de desenvolvimento da doença poderia levar a conclusões equivocadas sobre taxas de cura ou óbito), a letalidade nesse grupo de municípios ficou em 2,4%. É praticamente a mesma média estadual, que alcançou 2,6% no mesmo intervalo.


Epidemiologista e gerente de Risco do Hospital de Clínicas, Ricardo Kuchenbecker avalia que é muito difícil tirar conclusões definitivas sobre a eficácia de medicações com base no impacto da pandemia sobre a população, já que muitos indicadores variam conforme o grau de testagem (como a letalidade, que é o percentual de infectados que morrem) ou por uma série de outras razões como proporção de idosos, densidade demográfica e o estágio da doença em cada local.


— Pode-se dizer que não há dados que comprovem a eficácia do kit — avalia o especialista.


O doutor em matemática e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Álvaro Krüger Ramos avalia que comparar as cidades que primeiro adotaram o kit com uma amostra de outros municípios é arriscado pela dificuldade de ajustar todos os outros fatores que podem interferir no impacto da doença. Uma possibilidade, segundo ele, seria espelhar cada cidade com ela mesma antes e depois do início da estratégia.


Os dados de letalidade e taxa de internação melhoraram nesse grupo de municípios comparando-se os 45 dias anteriores ao início da distribuição dos produtos com os 45 dias posteriores: a letalidade variou de 3,8% para 2,4%, e o índice de hospitalização caiu de 9,4% para 6,1%. Mas não há como atribuir o desempenho à cesta de medicações por uma razão: essa melhora foi observada em todo o Estado, incluindo também as cidades que não despejaram cloroquina ou ivermectina (vermífugo) nos postos de atendimento. Na média geral do Rio Grande do Sul, a letalidade caiu de 3,2% para 2,6%, e a proporção de internações, de 10,5% para 8,5%.


Entre as possíveis explicações para a menor gravidade aparente da pandemia, que se repete em outros Estados e países, podem estar motivos como aumento de testagem ou maior contaminação entre pessoas mais jovens (que apresentam menos complicações). Pesquisas científicas mais recentes indicam que o uso de máscara poderia reduzir a carga viral nas eventuais infecções e amenizar a violência da covid-19.


Kuchenbecker lembra que os médicos também vão aprendendo as melhores formas de enfrentar o vírus, com todo tipo de medicação e recurso à disposição. O epidemiologista lembra que é normal a letalidade aparente ir diminuindo ao longo de uma pandemia. Ele acredita que a taxa do coronavírus poderá ficar, ao final, ao redor de 1%.


Prefeituras relatam baixo uso da cloroquina


Um outro indício sugere que o "kit covid" não pode ser apontado, de forma segura, como responsável por menos mortes ou internações no Estado. A cloroquina, uma das principais apostas entre os medicamentos adotados por essas prefeituras, acabou tendo muito menos saída do que o esperado em cidades como Campo Bom.


— Atualmente, entram raríssimas prescrições de cloroquina. O que temos visto é que os médicos da linha de frente não estão prescrevendo. Do nosso estoque de 500 comprimidos, saiu apenas metade nos últimos meses. A ivermectina também já está com menos uso. A azitromicina (que combate infecções bacterianas) teve um aumento muito maior de demanda, mas acho que também deverá cair após um estudo recente apontar que não traz benefício para quem não tem infecção por bactéria associada — afirma a secretária de Saúde de Campo Bom, Suzana Ambros.


Suzana avalia que a adoção da cesta de produtos não provocou o impacto esperado pela gestão municipal:


— A gente esperava que haveria uma melhora sintomática nos pacientes que usassem (o kit), como ocorreu com o Tamiflu (antiviral) na pandemia de Gripe A, mas não percebemos isso com a cloroquina, por exemplo.


A secretária de Saúde de Parobé, Ana Elisa de Lima, faz um relato mais favorável da estratégia adotada pela cidade no começo de julho:


— Dos pacientes que usaram as medicações ainda no começo da doença, alguns até internaram, mas nenhum foi para a UTI.


Mas Ana Elisa afirma que, assim como em Campo Bom, a cloroquina acabou colocada em segundo plano ao longo das últimas semanas.


— Cloroquina quase não é prescrita. Se usa mais azitromicina, ivermectina, paracetamol e até o Tamiflu — afirma a secretária.

Fonte: Gaúcha ZH

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