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21/08/2020 | 15:32 | Geral

"Sei o que ela está sentindo", diz mãe de Eliza Samudio ao prestar apoio à família de jovem morta em Soledade

Coincidências do crime e desfecho trágico da vida da paranaense e da gaúcha Paula Perin Portes uniram mães que conversam diariamente por telefone

Gaúcha Paula Perin Portes, 18 anos, morta em 10 de junho de 2020 e Eliza Samudio, 25 anos, assassinada em 10 de junho de 2010 - Divulgação / Arquivo p


Eliza Samudio, 25 anos, e Paula Perin Portes, 18, nunca se conheceram, mas o desfecho trágico de suas vidas – e a coincidência de datas das duas mortes – acabou aproximando suas mães. A paranaense foi morta em Vespasiano (MG) por asfixia em 10 de junho de 2010. A necropsia do corpo da gaúcha aponta a mesma causa da morte, que ocorreu entre o final da noite do dia 10 e o início da madrugada do dia 11 junho de 2020, em Soledade, no norte do Estado.


Logo depois que o desaparecimento de Paula foi registrado, Marisete Perin, 49 anos, recebeu a ligação de Sônia de Fátima Moura, 55 anos. O contato entre as duas ocorreu por meio do grupo União de Vítimas, voltado a apoiar familiares de desaparecidos e vítimas de violência em todo país.


Mãe de Eliza, Sônia procurou Marisete após ver reportagens sobre o sumiço de Paula e identificar pontos em comum com o crime que tirou a vida da modelo. As conversas se tornaram diárias. O apoio oferecido pela mãe de Eliza consolidou o vínculo durante os 67 dias em que a gaúcha esteve desaparecida. Na última segunda-feira (17), quando o corpo de Paula foi encontrado enterrado em uma propriedade rural de difícil acesso no interior de Soledade, o telefone de Marisete tocou às 7h30min. Era Sônia.


— Ela estava muito sentida, chorou bastante, mas disse que estava aliviada porque ao menos Paula teria um velório decente. E que eu, ao menos, tinha conseguido o corpo da minha filha. Até hoje ela não conseguiu o corpo da filha dela. Durante todo o tempo, ela tinha fé que encontrariam a Paula, não queria que a história da Eliza se repetisse aqui — recorda Marisete.


Sônia vive em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, e tem a guarda do neto de 10 anos, filho de Eliza com Bruno Fernandes, 35. O ex-goleiro do Flamengo foi condenado em 2013 a 22 anos de prisão  – depois reduzidos para 20 anos e nove meses – pelo homicídio da então ex-namorada Eliza. Progrediu no ano passado para o regime semiaberto e vive em Varginha (MG).


— Logo que a Paula desapareceu, os dias foram ficando cada vez mais longos, eu sempre conversando com ela, dizendo que a esperança é a última que morre. Mas lembrava: "vai se preparando para o pior". A gente não quer acreditar. Fica na esperança que vai aparecer e que está tudo bem. E disso falávamos muito. Até que um dia, ela me disse: "sei que minha filha não está mais viva e que fizeram alguma coisa com ela." Sabia exatamente o que ela estava sentindo. Eu me via refletida nela. Mesma data do crime, muitas coincidências. Por isso abracei a Marisete — afirma Sônia.


Durante conversas por telefone, Sônia e Marisete passaram até a identificar semelhanças físicas entre as filhas. Colocam fotos de ambas uma ao lado da outra e fazem comparações. Paula tinha acabado de completar 18 anos. Eliza, com um filho recém-nascido, tinha chegado aos 25 anos. Marisete diz que ambas se deram conta que as filhas tinham os mesmos gênio e personalidade. E que eram determinadas quando queriam alcançar um objetivo.


— Falamos quase todos os dias e esse contato me faz bem. Ela disse que na época da Eliza não teve ajuda de ninguém e eu desde o começo tive muito apoio — conta a mãe de Paula.


Marisete faz acompanhamento psicológico diário. E já ouviu diversas vezes de Sônia que precisa continuar se alimentando para ter força para buscar Justiça pela filha. Sônia conta que chegou perder 30 quilos em 2010 – 17 quilos em apenas 15 dias pois não conseguia comer.


— Nas nossas primeiras conversas, eu dizia que sabia exatamente o que ela estava passando. Essa aflição, angustia e dor. Eu pedia para ela se cuidar, tomar medicação para estar bem física e psicologicamente para a hora que encontrassem o corpo da filha dela.


Integrante da diretoria da União de Vítimas, Sônia considera fundamental a assistência e o apoio psicológico aos familiares das vítimas. Sem estrutura emocional, é ainda mais desafiador enfrentar o luto, observa ela. Na avaliação da mãe de Eliza, falar dos filhos traz algum conforto:


— Quando aconteceu comigo, fiquei fora do ar, não dormia, não comia. Meu psicológico estava tão afetado que, na primeira vez que sentei em frente ao psicólogo, nem sequer conseguia falar. Então, se eu poder ajudar pelo menos uma mãe, a trazer um pouco de alivio e ser solidária à dor dela, já fico feliz. Um dia espero poder abraçar essa mãe pessoalmente — diz Sônia.


No domingo à tarde (um dia antes de encontrarem o corpo), Sônia e Marisete conversaram por horas enquanto a polícia realizava mais uma busca pelo corpo de Paula. Sônia repetia à amiga: "quem sabe sua resposta não virá hoje." Sua intuição estava certa. 0h30min de segunda-feira, Paula foi encontrada.


— Confesso que fiquei aliviada por ela, por ter conseguido o corpo da filha para dar um enterro digno. É triste porque até hoje eu ainda procuro o corpo da minha. Dez anos e então sei o que foi feito da minha — afirma.


Enquanto conversava com GaúchaZH por telefone e observava o neto brincar, Sônia disse que ainda tem esperança encontrar o paradeiro do corpo da filha. Garante que sua luta por respostas será constante:


— Não existe crime perfeito. Queria que um dia, um dos envolvidos, nem que fosse por uma ligação anônima, informasse à polícia o destino do corpo. Enquanto eu estiver viva, vou estar perguntando e clamando por este corpo. Muitas vezes me pego imaginando onde pode estar.


Investigação do Caso Paula


Com três suspeitos pela morte de Paula presos e o corpo da jovem já localizado, o foco da investigação está voltado para a localização de Micael Willian Rossi Ortiz, 22 anos. A polícia considera que o investigado foi usado para atrair a jovem até o local do crime.


— Vão encontrá-lo, é uma questão de dias. Será capturado — afirma Salete Canello, advogada de Marisete.


A delegada Fabiane Bittencourt acredita que Paula foi morta em uma queima de arquivo, por ter conhecimento de crimes cometidos pelos suspeitos, ligados ao tráfico de drogas e a uma facção criminosa com base no Vale do Sinos.


— O que me revolta mais é a emboscada que fizeram com ela. Paula não tinha experiência de vida, para ela todo mundo era amigo, era muito ingênua. Esse buraco em mim sempre vai existir, é um vazio e uma dor que ninguém esquece. O que a minha filha podia saber contra eles? — questiona Marisete.


Contraponto


Responsável pela defesa de Ortiz, o advogado Manoel Pedro Castanheira afirma que não sabe qual o paradeiro do cliente. "Com relação ao fato, não posso afirmar se ele tem ou não envolvimento pois não tivemos contato com ele. Só ele, quando se apresentar, poderá prestar essa informação."

Fonte: Gaúcha ZH

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