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04/08/2020 | 08:29 | Saúde

Quase 80% das mortes por Covid-19 no RS são de pessoas com mais de 60 anos

Na faixa entre 70 a 79 anos, RS registrou mais mortes de homens idosos. Já acima de 80, o cenário se inverte, com mais mulheres vindo a óbito

Até segunda-feira (3), quase 1,6 mil idosos haviam perdido a vida para a doença no RS ? Reprodução/RBS TV


Dos mais de 2 mil mortos por coronavírus do Rio Grande do Sul, 1.599, ou 79,31% tinham mais de 60 anos até esta segunda-feira (3), como apontam os dados divulgados diariamente pela Secretaria Estadual do RS.


Os números mostram também que, entre 60 e 79 anos, os homens são a maioria nos índices de falecimento no estado. A partir dos 80, a situação se inverte: quanto mais avançada a idade, maior é a mortalidade entre mulheres. Confira os dados nos gráficos abaixo.


Conforme o professor e médico Angelo Bos, da Pós-Graduação em Gerontologia Biomédica da PUCRS, a população de idosos no RS é a maior do país, o que reflete na alta probabilidade de casos e óbitos pela doença.


Ele identifica dois "grupos" em relação à forma com que o coronavírus chega até uma pessoa da terceira cidade: há os idosos mais jovens, que ainda saem de casa e, por estarem mais vulneráveis imunologicamente do que os jovens, acabam falecendo mais, e os longevos, com a idade já avançada, que acabam se contaminando na própria residência.


Há uma tendência, já evidenciada em pesquisas, de que, entre os idosos de faixa etária mais baixa, os homens saem mais de casa do que as mulheres com a mesma idade, explica Bos.


"A partir dos 80 anos, na faixa etária dos longevos, algumas características se tornam mais evidentes: o número proporcional de homens é bem menor, em torno dos 40%, e, principalmente as mulheres apresentam um grau de dependência muito maior, necessitando mais frequentemente de cuidado", afirma.


Na terceira idade, é comum a contratação de cuidadores. "Entre as mulheres isso é exercido por pessoas contratadas. Já entre os homens, o cuidado é mais frequentemente exercido por familiar, principalmente esposas", afirma.


O papel das ILPIs


As mortes ligadas a surtos em instituições de longa permanência de idosos (ILPIs) também causam preocupação: foram 74 mortes, de um total de 87 óbitos ligados a surtos em empresas e instituições de atendimento. A última atualização do boletim de surtos no RS é da semana passada.


"As instituições contam com muitos colaboradores e a probabilidade de um deles trazer para a instituição o vírus é grande. Na Espanha por exemplo todos os residentes e funcionários de ILPI são testados quinzenalmente", aponta Bos.


No Brasil, o médico avalia que falta uma política de apoio às ILPIs. "Entendi que existem algumas iniciativas por parte do Ministério da Saúde em dar mais atenção [às instituições]. Em diversos países existe um apoio financeiro muito maior dando melhores condições para que os residentes sejam realmente melhor cuidados", avalia.


O professor e médico coordena uma pesquisa que acompanha nonagenários e centenários em Porto Alegre, o projeto Ampal (Atenção Multiprofissional ao Longevo).


"Infelizmente o que mais está afetando esse grupo é a falta de atividade física porque eles estavam acostumados a praticar em praças ou nas calçadas", afirma. O grupo irá trabalhar com os participantes na adesão de um protocolo de atividade físicas adaptado às condições dos idosos, desenvolvido na Espanha. Bos ainda comenta que a pesquisa está começando a acompanhar aspectos de saúde emocional dos idosos durante a pandemia, focando na dificuldade de sono e depressão.


Menos imunidade


A idade é um dos principais fatores de risco para o coronavírus devido ao comprometimento do sistema imunológico, que é característico do avanço da idade, como explica o infectologista e chefe do Serviço de Infectologia do Hospital de Clínicas, Eduardo Sprinz.


"Geralmente tem outras doenças em associação, mas só o fato de ser idosos deixa o sistema imunológico mais suscetível à complicação desse vírus", aponta.


"Não existe uma receita, algo que irá reforçar o sistema imunológico", ressalta. Segundo o infectologista, são os idosos que mais evoluem para quadros de insuficiência respiratória após o contágio com a Covid-19.


Por isso, Sprinz reforça que, na falta de uma vacina, a única forma de evitar o contágio de idosos pela doença é o cuidado com o distanciamento físico. "Os idosos podem nem estar saindo de casa, mas as pessoas mais jovens levam a doença até eles", lembra.


Em São Leopoldo, na Região Metropolitana de Porto Alegre, o guarda municipal Ipson Oliveira Pavani é um dos idosos a falecer pela doença. Ele morreu no dia 29 de julho, aos 61 anos. Após ter sentido sintomas de gripe, Pavani foi afastado do trabalho, e se isolou do resto dos familiares.


Conforme a nora Amanda Dapper de Mello, Pavani teve o diagnóstico confirmado uma semana antes do óbito, quando foi fazer o exame, em uma UPA da cidade. "De lá, ele já foi internado".


O guarda municipal, relata Amanda, tinha boa saúde, e a única comorbidade que tratava era diabetes. "Eu nunca vi meu sogro gripado. Meu sogro tinha saúde de ferro, podia andar de regata no inverno que não caía de cama, ele era acostumado a trabalhar na madrugada. Isso nos pegou muito de surpresa".


Pavani deixa o filho, também chamado Ipson, dois netos de cinco meses, e a esposa, de 75 anos, que não teve sintomas e também realizou o teste, ainda sem resultado.


Como observa a nora, até o fim da vida, o sogro atuou para a comunidade, inclusive trabalhando para coibir aglomerações e festas flagradas na cidade. "Pessoas que precisam trabalhar tentando proteger o próximo acabam perdendo a vida por falta de noção de alguns", conclui.

Fonte: G1

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