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05/05/2020 | 20:05 | Política

Pressão para troca no comando da PF teria começado em março, disse Moro em depoimento

Ex-juiz afirmou a investigadores que principal interesse de Bolsonaro era o comando da instituição no Rio de Janeiro

Palácio do Planalto


“Moro, você tem 27 superintendências. Eu quero apenas uma, a do Rio de Janeiro.” Segundo declarou o ex-ministro da Justiça Sergio Moro à Polícia Federal (PF), foi com essas palavras que o presidente Jair Bolsonaro começou a pedir, em março, a troca do comando da principal força policial do país. Reveladas pela CNN Brasil na tarde desta terça-feira (5), as 10 páginas com o teor das mais de oito horas de depoimento do ex-juiz trazem a versão dele para os bastidores de sua saída do governo.


Segundo Moro, a pressão mais explícita ocorreu em 22 de abril, durante reunião ministerial no Palácio do Planalto. Na ocasião, Bolsonaro teria exigido não só a troca na superintendência no Rio e da direção-geral, como também acesso a relatórios de inteligência e informação. “Que o presidente afirmou que iria interferir em todos os ministérios e quanto ao Ministério da Justiça, se não pudesse trocar o Superintendente do Rio de Janeiro, trocaria o Diretor Geral e o próprio Ministro da Justiça”, diz o documento. Moro afirmou aos delegados que a reunião foi gravada em vídeo e que, se uma cópia da audiência fosse solicitada ao governo, seria possível comprovar suas declarações.


No dia seguinte, Moro foi chamado ao gabinete presidencial e comunicado que Valeixo seria exonerado. O então ministro disse ter cobrado motivos, que não aceitaria a mudança e, na saída, ter se reunido com os três ministros militares do Palácio do Planalto, Braga Netto (Casa Civil), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria-Geral). Na reunião, Moro disse ter informado os colegas que Bolsonaro queria acesso a relatórios sigilosos, “oportunidade na qual o ministro Heleno afirmou que o tipo de relatório de inteligência que o Presidente queria não tinha como ser fornecido”.


Mais tarde, Moro teria sido procurado por Ramos com uma promessa de interlocução junto ao presidente, mas que tal diálogo não se realizou. Surpreendido na manhã seguinte com a exoneração de Valeixo publicada no Diário Oficial, decidiu pedir demissão.


Durante o depoimento, o ex-ministro cedeu seu celular para que as mensagens trocadas com o presidente fossem copiadas, contudo havia apenas 15 dias de registros. Desde que teve o aparelho invadido por hackers, no ano passado, Moro apaga suas mensagens periodicamente para evitar outro vazamento indevido. Em razão da escassez de supostas provas de outras pressões do presidente, ele indicou os nomes de ministros e outras autoridades que poderiam confirmar suas afirmações, como Braga Neto, Heleno, Ramos, a deputada Carla Zambelli (PSL-SP) e os delegados da PF Maurício Valeixo, demitido da diretoria-geral, e Ricardo Saad, retirado do cargo de superintendente no Rio.


O indício mais contundente seria uma mensagem de Bolsonaro na qual o presidente aponta uma reportagem do site O Antagonista informando que um inquérito em andamento no Supremo Tribunal Federal (STF) estava no encalço de “10 ou 12 deputados bolsonaristas”. Moro, contudo, deixou margem para apresentação de outras supostas provas. “O Declarante, revendo o chat de conversa com o presidente, identificou várias outras mensagens que podem ser relevantes para a investigação, inclusive outra mensagem sobre o Inquérito no STF e outra com determinação do Presidente de que o Dr. VALEIXO seria ‘substituído essa  semana a pedido ou ex-ofício’, além de outra com indicativo de desejo dele de substituição do SR/PE”, diz a transcrição do depoimento.


No interrogatório, Moro diz que as pressões começaram em agosto de 2019, quando o presidente teria pedido, no Palácio do Planalto, para trocar o superintendente da PF no Rio Ricardo Saad. Moro não soube precisar se mais alguém estava junto no momento do pedido, tampouco se recebeu mensagem com teor semelhante.


O ex-ministro disse que na época já havia ameaçado se demitir por não aceitar que o substituto fosse Alexandre Saraiva, superintendente em Alagoas e preferido do presidente para o cargo no Rio. Bolsonaro recuou, mas desde então começou a insistir na queda de Valeixo. Esse pedido teria sido feito inúmeras vezes, inclusive na presença do general Heleno.


Em janeiro, Bolsonaro teria voltado à carga, desta vez sugerindo o nome do chefe da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Mais uma vez, Moro teria resistido, inclusive argumentando que Ramagem era muito próximo da família do presidente e que a troca causaria desgaste para PF, Ministério da Justiça e o próprio governo.


Para dirimir a discórdia, Moro disse ter sugerido então os nomes de Disney Rossetti, número 2 da PF, ou Fabiano Bordignon, diretor do Departamento Penitenciário Nacional (Depen). Ambos teriam sido rechaçados pelo presidente, que citou então o atual secretário de Segurança do Distrito Federal, Anderson Torres, outro amigo da família, ou o delegado Alfredo Carrijo.


Quando recebeu a mensagem em que o presidente manifestava o desejo de querer “apenas” a superintendência do Rio, Moro estava em Washington com Valeixo. O ex-ministro diz ter revelado o teor da mensagem ao subordinado. Constrangido, Valeixo teria dito que aceitaria deixar o cargo para evitar maiores desgastes entre o ministro e o presidente. Moro, porém, diz ter resistido até o limite.

Fonte: Gaúcha ZH

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