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16/03/2020 | 05:57 | Política

Depois de desagradar esquerda e direita, Regina Duarte enfrenta limitações para montar equipe

Regina deve aproveitar as próximas semanas para acalmar ânimos e angariar apoios

Em discurso de posse, Regina Duarte associou a cultura brasileira a "pum do palhaço" e "caipirinha de maracujá" - Roberto Castro / Ministério do Turis


A gestão de Regina Duarte na Secretaria Especial de Cultura pode ganhar novo fôlego nos próximos dias. Com a chegada da covid-19, a Brasília, a orientação é que reuniões e eventos sejam reavaliados, o que deve retardar o ritmo das decisões no Planalto. 


Tal desaceleração é uma oportunidade para a secretária acalmar ânimos, angariar apoios e finalmente montar uma equipe de trabalho. Em menos de duas semanas no cargo, Regina Duarte atraiu a antipatia de grupos de direita e de esquerda, e agora encara um contexto de trabalho bastante diferente do que lhe foi proposto. No discurso de posse, usou clichês como o "pum do palhaço" e "caipirinha de maracujá" para definir a cultura brasileira, deixando descontente grande parte da classe artística.


Foi no mesmo discurso que fez questão de citar que Bolsonaro lhe prometeu "carta branca" e "porteira fechada", ou seja, liberdade de ação e segurança na manutenção do posto. Mas as cartas se toldaram pouco tempo depois, logo após uma entrevista de Regina para o Fantástico. A participação no programa da Rede Globo gerou reações negativas do secretário de Governo, o ministro Luiz Eduardo Ramos; do presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo; e do escritor Olavo de Carvalho, sem vínculo formal com o governo, mas estimado por muitos bolsonaristas e apontado como mentor de muitas linhas de ação da atual gestão.


Sem experiência em cargos públicos, Regina tem buscado se cercar de profissionais de perfil técnico, com vivência aprofundada nas áreas de atuação. No entanto, está sofrendo limitações para montar sua equipe. Ela já obteve pelo menos um veto nesse sentido, da assistente social Maria do Carmo Brant de Carvalho, que chegou a ser nomeada como secretária de Diversidade Cultural, mas não pôde ocupar o cargo. Suspeita-se que o veto tenha sido motivado por questões ideológicas, já que Maria do Carmo é filiada ao PSDB e ocupou um cargo no governo na gestão de Michel Temer. 


Ela também vem enfrentando dificuldades para nomear Humberto Braga como seu secretário adjunto, pois um grupo de apoiadores levou a Bolsonaro fotos de Braga com parlamentares de esquerda, como Marcelo Freixo (PSOL-RJ), em eventos públicos.


Para o gaúcho Henrique Pires, que ocupou a pasta de janeiro a agosto do ano passado, a instabilidade é em grande parte provocada pela estrutura atual da Cultura, que deixou de ser um ministério para se tornar uma secretaria especial. Pires foi o primeiro a ocupar o posto de secretário especial da Cultura.


— Percebo que o modelo de secretaria especial não serve para a área da Cultura. É um modelo que funciona muito bem para a área das Forças Armadas, por exemplo. Não temos mais ministros do Exército, da Marinha ou da Aeronáutica. São secretários ocupando cargos de natureza especial. Mas, na Cultura, isso não funciona. Nas três forças, existe uma questão basilar, que é a disciplina. Mas como disciplinar a classe artística, se a arte se forma no rompimento, na discussão? — questiona Henrique.


Subordinada atualmente ao Ministério do Turismo, a secretaria especial de Cultura não tem poder para nomear diretamente ocupantes para cargos de liderança de agências, secretarias e fundações que estão hierarquicamente abaixo da secretaria. Por conta disso, Regina não pode exonerar sozinha Sérgio Camargo, mesmo que o subordinado tenha feito um comentário irônico em relação a ela nas redes sociais, ou manter Maria do Carmo na Secretaria de Diversidade Cultural, por exemplo.


– O Brasil perdeu uma grande oportunidade de fazer a Cultura voltar a ser ministério. Se Regina fosse ministra, assinaria os atos de nomeação. Hoje não. Ela tem que solicitar para o Ministro do Turismo a chancela para nomear uma pessoa que, na prática, vai trabalhar para ela. Será muito difícil pacificar esse setor mantendo essa estrutura – opina Henrique Pires


A entrevista


No Fantástico, a atriz afirmou que uma "facção" quer tomar seu lugar e lamentou "ter perdido tanto tempo desfazendo intrigas, fake news". A reação de secretário de Governo, o ministro Luiz Eduardo Ramos, demonstrou que há nos bastidores uma tentativa real de limitar atos e pronunciamentos da secretária: "O presidente valoriza a Cultura, que deve se espelhar na família tradicional e nos princípios cristãos. Nosso governo tem um norte: a vontade da maioria do seu povo. Nisso Regina e Bolsonaro devem estar juntos. São seus ministros e secretários que devem se moldar aos princípios publicamente defendidos pelo presidente da República, não o contrário".


Além da crítica do alto escalão do governo, a secretária também sofreu uma reação negativa de um subordinado, o presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo. Conhecido por defender o fim do Dia da Consciência Negra, Camargo escreveu em seu Twitter: "Bom dia a todos, exceto a quem chama apoiadores do Bolsonaro de facção e o negro que não se submete aos seus amigos da esquerda de 'problema que vai resolver'". Ele se referia à atriz, que o chamou de "problema" e "ativista".


Sem vínculo formal com o governo, mas guru de muitos bolsonaristas, inclusive ministros do atual governo, Olavo de Carvalho também opinou. No Facebook, escreveu que "Regina Duarte age como se o seu emprego no governo lhe pertencesse por direito natural contestado apenas por 'uma facção bolsonarista', quando na verdade foi essa facção, representada pelo presidente (Jair Bolsonaro), quem lhe deu o emprego". Para arrematar, Olavo também afirmou que "a véia não está boa da cabeça e não deve ocupar cargo nenhum".

Fonte: Gaúcha ZH

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