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05/01/2019 | 08:02 | Geral

Busca por armas dispara no RS

Clubes de tiro registram crescimento do Estado e expressam uma nova cultura marcada pelo apreço aos armamentos

Em 2017, o Rio Grande do Sul tinha 60 entidades registradas. No ano passado, subiu para 85 - Júlio Cordeiro / Agencia RBS


Às 16h de uma quarta-feira, na linha de tiro do Clube Ranger, em Novo Hamburgo, o engenheiro de produção Jayme Peixoto municia uma pistola Imbel MD2, comprada há menos de um mês. Depois de colocar protetor auditivo e óculos, ele destrava a arma. Está pronto para apertar o gatilho. O projétil atinge o centro de uma silhueta de papel, a menos de 10 metros de distância. Peixoto dá mais 69 tiros pelas duas horas seguintes. Terminada a munição, acomoda a pistola em uma maleta preta, guardada pelo instrutor, e segue para casa.


O engenheiro é dos muitos que têm se preparado para estar apto caso a promessa de Jair Bolsonaro de facilitar o acesso dos brasileiros a armas seja cumprida. Eleito com a marca registrada das mãos em posição de arma, o presidente tem influenciado o mercado e atraído um arsenal de praticantes. 


Esse interesse aparece nos números de clubes de tiro. Em 2017, o Rio Grande do Sul tinha 60 entidades registradas. No ano passado, subiu para 85. GaúchaZH visitou dois desses centros em dezembro para saber como funcionam e conhecer atiradores e instrutores.


Peixoto é aluno do Ranger, centro que oferece cursos de tiro para civis no país do Estatuto do Desarmamento. Autorizadas pela lei, as aulas se popularizaram no ano passado, influenciadas pela campanha pró-armas de Bolsonaro.


— Antes, achava quase impossível ter uma arma. Agora, com o presidente, será mais fácil. Se o governo permitir, pretendo portar uma arma. Quanto mais pessoas puderem reagir, menos chance a bandidagem terá — diz Peixoto.


O presidente pretende dar acesso aos cidadãos —na quinta-feira passada, em entrevista ao SBT, reafirmou que irá assinar decreto para permitir a posse a todas as pessoas sem ficha criminal.


Peixoto havia procurado o Ranger naquele mês. Neto de caçador, inscreveu-se em um curso, desembolsou R$ 5 mil pela primeira arma e protocolou o registro de atirador no Exército em menos de três semanas. Pesou na escolha a sensação de insegurança, mas gostou tanto da atividade que irá participar de torneios.


—Foi paixão à primeira vista. Na verdade, ao primeiro tiro — diz.


Destinados à prática esportiva, os clubes precisam de autorização da Polícia Civil, por meio do Departamento de Armas, Munição e Explosivos, para abrir. Para o diretor da divisão, delegado Anderson Spier, o Exército tem diminuído a rigidez para atiradores.


—Tendo em vista o rigor do Estatuto do Desarmamento, muitas pessoas têm buscado o tiro esportivo em uma tentativa de desenvolver a defesa pessoal —aponta Spier.


Para os praticantes de tiro como esporte, uma mudança substancial ocorreu há dois anos. No início de 2017, portaria do Exército autorizou o transporte de uma arma municiada nos deslocamentos entre o clube de tiro e a residência —antes, era preciso levá-la descarregada. 


—É um meio porte — afirma o presidente da Federação Gaúcha de Tiro Prático, Ivan Keller. —Algumas pessoas têm usado essa ferramenta para defesa, mas não estão burlando o sistema. Está tudo previsto em lei.


Concedido pelo Exército, o registro para atiradores também cresceu no Estado. Foi de 20 mil em 2017 para mais de 30 mil no ano passado. Para obtê-lo, é preciso ser maior de 25 anos, e não ter antecedentes criminais e passar por testes psicológico e técnico. 


Trata-se de um processo lento —pode levar mais de quatro meses —, com custo —as despesas ultrapassam R$ 800 —e burocrático. Válido por três anos, o certificado exige que o atirador se associe a um clube e pratique o esporte regularmente. De acordo com Keller, a entidade sentiu a onda bolsonarista em 2018, recebendo quase 500 novos associados e chegando a um quadro de 2,1 mil atiradores. Nos torneios, deram o número recorde de 361.323 disparos —mil por dia, em média.


Na loja e no clube, controle rígido


No Estado, o movimento pró-armas repercute na mudança de perfil dos clubes de tiro. Dois empreendimentos inaugurados em 2018 copiam o modelo norte-americano de torná-los mais do que ambientes onde é liberado apertar o gatilho — são espaços de lazer que incorporam a cultura armamentista desde os acessórios vendidos à arquitetura decorada com alvos. Mas, diferentemente de outros clubes de lazer, tem cheiro de pólvora e barulho de estampidos.


Inaugurado em fevereiro no bairro Rio Branco, em Novo Hamburgo, o Clube Ranger angariou 950 sócios em menos de um ano. Gradeado com barras de metal, o prédio de dois andarem tem duas portas: a primeira dá para uma loja; a segunda, para o centro de treinamento.


No comércio, Douglas Tiburski atende os clientes, mas somente depois de analisá-los pelas imagens das câmeras de segurança instaladas na porta. Das 10 pessoas que trabalham no local, é o único que usa uma pistola visível em um coldre preso ao cinto. Todos os outros também estão armados, mas cabe a ele intimidar eventuais mal intencionados. 


Carabinas e pistolas de pressão penduradas em uma parede, camisetas de uma fabricante de armas e chaveiros de minirrevólveres estão entre os itens dispostos nas prateleiras. As armas de verdade ficam armazenadas em um cofre interno, equipado com sistema antipânico e botão com ligação direta para o 190. Nem todos os interessados chegam a vê-las —Tiburski solicita nome e RG. Depois de consulta no sistema da Polícia Civil, só permanece quem é ficha limpa.


—Tem um problema com a polícia? Nem passa do balcão. Assim, conseguimos separar o joio do trigo. Diariamente, várias pessoas são convidadas a se retirar —conta Marcello dos Santos, um dos sócios.


Já o clube só pode ser acessado pelos sócios —a anuidade custa R$ 700 —ou por quem reservar um estande —o aluguel sai por R$ 30. O local tem área reservada para crianças, com cama elástica e brinquedos, e sala que transmite as linhas de tiro em tempo real. 


Dentro do estande, protegido por vidro à prova de balas, os atiradores têm à disposição um arsenal de espingardas, pistolas, revólveres e fuzis, dispostos em um armário cadeado. Por lá, o uso de protetores de ouvidos e olhos é imperativo.


— Gosto de atirar não por prazer, mas para treino, caso precise usar a minha arma para defender a minha família ou a minha casa — conta o corretor de imóveis Maurício Lambstein, que passou pelo estande durante o intervalo de almoço no dia em que GaúchaZH esteve no local.


Por mês, o clube abre dois cursos, feminino e misto, ministrados por Santos. O treinamento começa em uma sala de aula, onde os alunos recebem instruções sobre manuseio seguro de armamento e legislação. Depois de três horas de teoria, passam para a prática.


— Bolsonaro conseguiu colocar na cabeça das pessoas que é bom ter uma arma para defender a família, e isso representa uma mudança cultural. Então, por que não passar para as pessoas o que é certo? Aqui, só ensinamos cidadãos de bem —afirma Santos.


— Hoje, o vagabundo acha que ninguém tem arma, né? —emenda Thales da Silva, outro dos sócios.


No clube visitado por GaúchaZH em Porto Alegre, os sócios preferiram não conceder entrevista, somente deixaram que a reportagem conhecesse o local. 


O Gunfight fica em um pavilhão de tijolos à vista no bairro São Geraldo. Portões pretos pintados com o desenho de alvos vermelhos chamam a atenção logo da calçada. O ambiente lembra um centro de segurança —salas abrem-se com biometria, câmeras espalham-se por todos os cantos e parte dos frequentadores anda armada.


Há uma loja de armamento e acessórios diversos, onde se vende de taco de beisebol enrolado em arame farpado a spray de pimenta, e um café que reúne atiradores. Frequentada pelos 500 sócios, a linha de tiro dispõe de silhuetas presas em pneus e até um carro para que simulem cenários de conflito.


Em seu site, o clube se apresenta como um "centro de treinamento dedicado a desenvolver o lifestyle e a cultura de segurança", promovendo "igualdade, liberdade e respeito". Entre os serviços, há treinamento para o enfrentamento da violência urbana e o personal gun — um personal trainer de tiro. 


Posse x porte


Quem tem autorização para posse de arma de fogo pode manter o armamento no interior de residência ou no local de trabalho. 


O porte pressupõe autorização para circular com a arma, fora da residência ou do local de trabalho. Para obter, é preciso comprovar necessidade de defesa, expondo fatos e circunstâncias.


Polícia Federal x Exército


A posse e o porte de armas são autorizados somente pela Polícia Federal (PF).


Os atiradores esportivos são registrados no Exército. Precisam ser associados a um clube de tiro e comprovar a prática regular.


Os critérios de Exército e PF para conceder licenças têm semelhanças: comprovar idoneidade, com certidões negativas de antecedentes criminais, ter aptidão psicológica para o manuseio de arma de fogo, que deverá ser atestada por psicólogo credenciado pela PF, ter capacidade técnica para o manuseio, que deverá ser atestada por instrutor de armamento e tiro credenciado pela PF e não estar respondendo a inquérito policial ou a processo criminal.


Mas há diferenças também. Na PF, é necessário comprovar ocupação lícita e declarar efetiva necessidade, expondo fatos e circunstâncias que justifiquem o pedido. Para o Exército, o interessado deve estar inscrito em algum clube e na federação de tiro ou caça, comprovar que frequenta clube, participa de provas e ter declaração da entidade de que as armas podem ser usadas lá.


Por que procurar o Exército em vez da PF?


Para driblar o rigor da PF, muitas pessoas interessadas em ter armas buscam licença com o Exército para esporte e caça. Na prática, pretendem empregar a arma na defesa pessoal. A estratégia é utilizada por muitas pessoas que tentam obter a posse de armas na Polícia Federal e não são aprovadas. 


Porte de arma x porte de trânsito


O porte de arma concedido pela PF autoriza o cidadão a carregar uma arma para defesa pessoal contra uma agressão injustificada, como um assalto à mão armada. 


É uma exceção prevista no Estatuto do Desarmamento. O cidadão precisa demonstrar a efetiva necessidade, pela sua atividade profissional de risco ou ameaça a sua integridade física, que será avaliada por um delegado da Polícia Federal.


O porte de trânsito concedido pelo Exército autoriza o atirador a transportar uma arma municiada de um local de origem a um local de destino específico —normalmente, de casa para um clube de tiro ou um campeonato.


Não é um porte de arma, somente libera o atirador para carregar a arma para praticar a atividade de tiro.

Fonte: Gaúcha ZH

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